quarta-feira, 19 de maio de 2010

Deu na Imprensa

Herdeiro da Xilogravura

As paisagens do sertão nordestino misturadas aos elementos do imaginário popular, como lobisomens, sereias aladas, cavalos de fogo, são impressos com freqüência nos livros de cordel a partir da técnica da xilografia. A técnica milenar surgiu como recurso de reprodução de impressos e ganhou status de arte nas mãos de grandes pintores europeus. Aqui no Nordeste a xilografia se popularizou e vem sendo preservada por grandes mestres, como o pernambucano J. Borges, considerado o maior gravador popular em atividade no Brasil. Herdeiro desta tradição e ao mesmo tempo rompendo com ela, o jovem xilógrafo potiguar de 24 anos, Erick Lima, está realizando cursos nas escolas públicas de Natal e região metropolitana com o objetivo de divulgar a técnica e a história da xilografia para adolescentes. “A cultura popular, apesar do nome, fica restrita a um pequeno grupo de produtores, chegando à população apenas o que é considerado cultura de massa”, disse Erick Lima, cujo projeto de popularização da xilografia foi aprovado pelo BNB Cultural e deve ser executado até o final deste ano.

As oficinas vão acontecer nas escolas públicas de todas as zonas de Natal e na Região metropolitana, como Parnamirim, Ceará-Mirim, Extremoz, São José de Mipibu e Nísia Floresta. “Antes da oficina eu entro em contato com os professores, para que possamos planejar a inserção do conteúdo na sala de aula”. No dia da oficina é feita uma contextualização histórica e em seguida os alunos põem a mão na madeira.

Erick Lima começou a trabalhar sistematicamente com a xilografia apenas em 2007, apesar do pouco tempo dedicado a arte, o jovem que é estudante de Ciências Sociais da UFRN, está imerso no universo da cultura popular nordestina desde a infância. Ele é filho de Erivaldo Leite de Lima, conhecido como Poeta Abaeté, um cordelista atuante no Estado. “Meu pai é de Sertânia, interior de Pernambuco e produz cordel há muito tempo. Ele veio para Natal há quase 30 anos”, disse Erick. E foi para ilustrar as histórias do pai e de seus amigos, que ele fez as primeiras matrizes em madeira.
Gravuras viram camisetas e azulejos
Os cenários representados em seu trabalho surgem tanto de sua memória da infância, já que na companhia do pai viajou por municípios do sertão nordestino, quanto dos textos dos cordelistas. “Os autores de cordel às vezes viajam na construção do texto. Nestas horas eu não posso fazer as gravuras a partir da minha memória, faço a partir dos textos”, disse.

Para fazer as matrizes em madeira, Erick utiliza ferramentas industrializadas, como as goivas e outras artesanais, como estiletes e pontas de faca. Dependendo do tamanho, o artista leva cerva de uma hora entre lixar a superfície da madeira, desenhar, entalhar e banhar o suporte com tinta de impressão gráfica.

A produção é rápida e não custa caro. Somando os valores gastos com a madeira, lixa e tinta, o artista gasta em média R$ 20,00. Apesar do baixo custo na produção, a atividade não é rentável, já que uma matriz de impressão pode ser vendida por apenas R$ 30,00.
O xilógrafo se mantém a partir das oficinas que ministra em escolas e na Casa do Cordel, além de vender matrizes para impressão de bolsas, camisetas e azulejos.
Segundo Erick o projeto aprovado pelo BNB não é uma fonte de renda, mas um meio de dar continuidade a outro que já vinha sendo realizando com recursos próprios, junto a Casa do Cordel. Segundo Erick, eles realizaram oficinas em escolas públicas e particulares com o objetivo de difundir a técnica. “Não queremos que a técnica fique presa em panelinhas”, disse Erick.
O xilógrafo diz que ao levar a xilografia e o cordel para as escolas, também está levando um pouco de história e das manifestações populares do estado. Afinal, nas páginas dos livretos é comum encontrar a história de nomes importantes, como de médicos, cangaceiros, artistas e de manifestações como o Boi de Reis e as procissões.
Em suas pesquisas Eick lima descobriu que nomes importantes das artes visuais no mundo usaram a xilografia como recurso. Um deles o norueguês Munch, que pintou a célebre obra O Grito (óleo e pastel sobre o cartão). Os trabalhos feitos no nordeste utilizam a mesma técnica difundida no século VIII, mas imprimem o modo particular do seu povo. A divulgação da xilografia nordestina veio depois de percebida a semelhança entre as gravuras populares feitas pelos xilógrafos e a arte européia. “A xilografia só foi popularizada depois que pesquisadores apontaram semelhanças com o movimento expressionista europeu e passaram a citar as obras em seus trabalhos acadêmicos”.
Abaeté na companhia de amigos abriu a Casa do Cordel, que hoje funciona na Rua Vigário Bartolomeu. Como sobravam cordéis e faltavam ilustrações, Erick precisou pesquisar na internet sobre xilogravura e bater um papo com aristas que dominam a técnica. A curiosidade do jovem foi tanta, que ele percorreu quilômetros para encontrar dois grandes mestres da xilografia popular. Na cidade de Bezerros, interior de Pernambuco ele conheceu J. Borges, considerado o maior gravador popular em atividade no Brasil e em Caruaru conheceu Seu Dila, o mestre de J. Borges.
A partir das pesquisas e do contato com os mestres, Erick começou a elaborar os seus primeiros trabalhos. “Os cordelistas me pressionavam muito, chegavam para mim e diziam: você tem que fazer isso direito para ilustrar os cordéis”. Dessa pressão nasceu o artista e o difusor da arte e da técnica da xilogravura popular.

Fonte: Tribuna do Norte - 19/05/2010

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